Felipe nunca tinha sentido frio de verdade. Natural de Recife, ele chegou a Gifu no final de dezembro. O céu parecia sempre nublado, o vento cortava a pele. O aquecedor do apartamento mal funcionava, e as paredes pareciam feitas de papel.
Nos primeiros dias, ele achava tudo curioso. A neve caindo sobre os telhados. O silêncio das ruas. A delicadeza das embalagens no mercado. Mas, aos poucos, o corpo cedeu. E a mente também.
Ele trabalhava à noite numa linha de produção. Saía com as mãos vermelhas, os ossos duros. Chegava em casa e ficava debaixo das cobertas com três meias, mas o frio continuava lá — e dentro dele também.
No fim da segunda semana, Felipe olhou as passagens para o Brasil. Fez as contas. Poderia ir embora com pouco, mas com saúde mental. “Não é covardia, é sobrevivência”, pensou.
Foi quando ouviram batidas na porta.
Era o vizinho do apartamento ao lado. Um japonês idoso, curvado, de gorro cinza e pantufas grossas. Ele falava baixo, com um sorriso tímido. Estendeu um pote de sopa quente, coberto com um pano de prato florido.
— Atsui kara, ki wo tsukete ne. “Tá quente. Cuidado.”
Felipe agradeceu, mesmo sem entender tudo. Sentou-se no chão da cozinha. Abriu a tampa. O vapor da sopa tocou seu rosto. E, pela primeira vez desde que chegou, ele chorou.

Não de dor. Mas de alívio.
Na semana seguinte, os dois começaram a se encontrar no corredor. O senhor contava histórias, ria, ensinava palavras. Felipe ajudava com as sacolas. No segundo mês, o vizinho o levou a um templo, no terceiro, apresentou-o ao grupo de leitura da biblioteca local.
Hoje, Felipe mora no mesmo prédio, cinco andares acima. O senhor não está mais aqui. Mas no inverno, ele sempre prepara sopa e deixa um pote na porta de algum novo vizinho estrangeiro que parece estar começando agora.

“Eu ia voltar por causa do frio. Mas fiquei por causa do calor.”